“Amor! Me ajuda aqui com as compras! E temos companhia!
Júlio larga a picanha que está salgando na gamela de madeira. Lava as mãos e as enxuga na calça de abrigo. Abre a porta de tela da cozinha e caminha em direção à mulher. Cigarras gritam correndo do sol ardente do início da tarde. Júlio de repente pára, ao lado do pé de bergamotas. E espera as duas mulheres se aproximarem.
“Amor, deixa eu te apresentar. Essa é a Helena, veio visitar uma amiga aqui no condomínio e está perdida. Eu sempre digo que tem que botar nomes nessas estradinhas, aí a gente pode dar um endereço pras pessoas! Helena, esse é o Júlio, meu marido.”
“ Prazer, Júlio. Muito lindo o sítio de vocês.”
“ Ah, pois é. Obrigado.”
“Amor, olha que coincidência, a Helena é tua colega, também é psicóloga!”
“É? Coincidência mesmo.”
“ Vamos fazer o seguinte: Helena, me dá teu celular que vou botar lá dentro pra carregar e aí tu ligas pra tua amiga. Enquanto isso, amor, leva ela pra dar uma volta até a piscina e conhecer as crianças.”
“Claro.”
Isso não é um comercial de margarina. Mas parece. Isso é uma realidade chamada Paraíso Perfeito e fica a poucos quilômetros da cidade, mais precisamente em um condomínio de pequenos sítios. É lá que você pode encontrar a família Fernandes Bastos nos finais de semana. É lá que eles exercem seu melhor papel: o de família modelo. Sim, modelo. Porque lá eles plantam flores, fazem churrascos, riem na piscina. Nos finais de tarde, com mantas xadrez sobre as pernas, sentados nas redes, assistem ao pôr-do-sol grudados uns aos outros. Luiza, Júlio e o casal de filhos. Os filhos da margarina. O casalzinho que atrai todos os olhares e atenções, com seus cabelos de cachos loiros e os olhinhos verdes amendoados, pequenas cópias da mãe. Os quatro se apaixonaram à primeira vista pelo lugar e concordaram felizes sobre o nome que iriam lhe dar. Era um lugar sagrado. Luiza, apesar da rotina estafante de médica, arranjara tempo para decorar a casa com bom gosto e todo conforto. Tudo combinava: as cores, os padrões, os quadros cercando a lareira de pedras. E também os muitos porta-retratos espalhados em simetrias cuidadosas, revelando os largos sorrisos, o véu da noiva, o palquinho da escola, casacos coloridos na neve.
A nova companhia e o rei do castelo encantado. Os dois continuavam parados ao lado da bergamoteira. Não haviam se mexido. Pairava entre eles um vento silencioso, um estranhamento gelado envolvia a cena. Quatro olhos se fitavam enredando pensamentos, mensagens silenciosas cruzando a teia.
“Helena! Amor! Querem um café quentinho?”
“ Senti o cheirinho aqui de fora. Estava mesmo dizendo pro Júlio que sou louca por café. De qualquer tipo, cappuccino, cortado, moka... eu não vivo sem café! Deve ser por isso que estou sempre tão elétrica, falando demais, é muita cafeína pra um só corpo. Mas acho que por hoje já bebi o bastante, obrigada.”
“ E, além disso, a Helena quer ligar logo para a amiga, ela deve estar preocupada. O telefone já está carregando? Acho que tu já podes ligar, né?”
“ Então entra aqui, Helena. Tu ligas e eu aproveito pra te mostrar a casa.”
O tempo parece passar mais devagar aqui no Paraíso. Os minutos se estiram por entre as árvores. Enquanto as duas novas amigas parecem estar num playground de sofás, tecidos e objetos, Júlio aperta entre os dedos as folhas verdes e duras que pendem dos galhos. Tem o olhar fixo. Parece que as folhas lhe dizem coisas que ele tem que se esforçar para entender. Charadas. Ele precisa responder rápido para continuar vencendo um jogo que não sabe porque resolveu começar. Não tem certeza se o prêmio para o primeiro lugar é assim tão valioso. Se não pensar logo, vai perder. As respostas também chegam muito devagar em Paraíso. Talvez porque não haja muitas perguntas elas perderam o hábito de aparecer. Aqui é o Paraíso, não se corre o risco de ter que modificar alguma coisa por causa de perguntas. Elas já foram todas respondidas.
“ Amor, tá parado aí ainda? Viu só, Helena, esse lugar é mágico. Faz a gente viajar sem sair do lugar. Olha o Júlio aí, nem parece meu maridinho sempre preocupado, envolvido com seus pacientes e suas neuroses! Tu deves saber bem como é.”
“ Sei sim, é literalmente uma loucura a nossa vida. Bom, Luiza, muito obrigada, vocês foram tão gentis. Adorei conhecer vocês e esse lugar tão lindo.”
“ Que bom que tu gostaste! Agora sempre que visitar tua amiga podes aparecer. Né, amor?”
“ Claro, claro que sim.”
Helena manobra o carro no gramado em frente à casa. Júlio observa os movimentos de perto enquanto caminha até a porteira. A cabeça baixa, concentra-se na tarefa de abrir o cadeado. Os gestos acompanham a vagareza do tempo, câmera lenta ao som das cigarras. Arrasta o portão lateralmente, hoje está mais pesado . O carro se aproxima e Helena abaixa o vidro. Faz calor. O rosto dele está franzido, os olhos parecem não se acostumar à tanta claridade. Ela tem a boca entreaberta, um ensaio de sorriso, a ironia alojada entre os dentes.
“ Eu só queria saber como era o Paraíso Perfeito. Te ligo amanhã, na mesma hora de sempre.”
Arranca o carro e uma poeira dourada sobe no ar. Imerso na nuvem que lhe resseca a boca, ele consegue dizer:
“ Por essa tu me pagas, sua puta.”
Vai lá: Fatal Atraction - Dir. Adrian Lyne - Paramount - 1987 - 120 mins.
3 comentários:
fico mt bom o texto soraaa!
;]
saudades e um mereço um BIS!
beeijao e sucesso!
burger
O paraíso perfeito é hipócrita. São as nossas imperfeições que dizem, realmente, quem somos. Já conhecia todos os contos (hehe!!), sou um privilegiado e suspeito leitor. Estou aguardando ansioso por um "inédito" (na pressão, hehehe!!!).
Bjo.
Não posso mais viver sem ela
Eva!
Devolva minha costela!
Não pode haver paraíso sem o fruto proibido.
Legal que fazia muito tempo que eu não cultivava esse salutar hábito de ler um conto. Pra mim que trabalho com tecnologia é um lance maneiro, pois, em função do tempo curto, tenho lido ultimamente só manuais técnicos...
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