sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Elefante verde-água


A mãe um dia chegou assim, do nada, e falou pro pai:

- Olha, Nereu, pra mim chega. Eu vou embora, eu não agüento mais viver aqui dentro dessa casa. Eu vou voltar para Senador Dutra, de onde eu nunca devia ter saído. Já arrumei tudo que é meu nas malas. Vou pegar o ônibus às onze e meia.

O pai, que já era meio avermelhado, parecia que ia explodir. Ele olhava pra mãe, o jornal aberto nas mãos, como se ela estivesse falando uma outra língua, uma língua que ele não podia entender. E apesar da boca estar meio aberta, ele não falava nada. A cena congelou na minha frente. E eu, que sentada na mesa de jantar fazia desenhos de zoológicos, uns bichos meio doidos que eu inventava, também petrifiquei. Embaralhei os lápis coloridos esperando a reposta do pai. Mas quem falou foi ela:

- Eu sempre te avisei, Nereu. Te disse que essa vida não era pra mim. Te falei tantas vezes que ficar sempre largada e sozinha cuidando da casa não ia dar certo. Mas tu nunca quiseste me escutar. Agora eu vou e tu ficas. A menina também.

A menina sou eu. O lápis vermelho caiu no chão e uma lasquinha encarnada se soltou. Muito azar justo o vermelho cair, eu nunca consigo fazer a ponta dos vermelhos direito, sempre quebra. Além disso, como é que ia desenhar as maçãs nas árvores agora? O pai dobrou o jornal no colo. E dobrou de novo as folhas grandes. E foi fazendo quadrados cada vez menores, o jornal ficou do tamanho de um gibi. Eu não sei como ele vai fazer se quiser ler as notícias de novo. Tá tudo muito amassado. O pai enfim falou:

- Mas Maria Inês, tu não podes sair assim. Como é que vai ser?

A mãe deu uma respirada bem forte. E também revirou os olhos pra cima. As bolinhas pretas que a gente tem nos olhos rodaram várias vezes.

- Como é que vai ser eu não sei. Eu só sei que estou pronta pra ir e não volto mais.

O pai tirou os óculos e esfregou muito o rosto todo, cobriu a cara com as mãozonas e eu pensei que ele ia chorar. Eu não queria ver o pai chorando, eu até pensava que os adultos nunca choravam, só a gente, quando machuca o joelho ou quando tranca o dedo na porta. Depois ele coçou a cabeça. Acho que ele ficou um pouco confuso, com medo de responder. Do jeito que eu fico quando a professora faz umas perguntas na escola e a gente não tem certeza se sabe. Às vezes parece que se a gente coçar a cabeça a resposta vem. Mas ele me olhou sem dizer nada. Eu olhei pra ele. E também não sabia o que falar.

O pai então levantou da cadeira, parecia muito cansado porque fez um esforço enorme com os dois braços pra ficar de pé. Ele veio caminhando na minha direção e parou do meu lado. Ficou olhando o meu desenho. Eu expliquei pra ele que aquele zoológico era diferente porque todos os bichos podiam andar soltos, não tinha jaulas no parque. Por isso os animais podiam escolher as cores que queriam ter. O elefante, por exemplo, queria sempre ser verde-água. Na verdade é minha cor preferida e esse lápis já tá quase terminando, de tanto que eu aponto. Eu não sei se ele entendeu. Ele só deu uma risadinha assim bem de leve, nem deu pra ver os dentes. Ele pegou o telefone, na mesinha que ficava atrás de mim.

- Teresa, sou eu, Nereu. Escuta, eu não sei, a Maria Inês tá com umas idéias malucas de ir embora, de voltar pra Senador. Eu acho que ela não tá bem, ouviu? Eu queria que tu viesse aqui pra falar com ela.

Ele foi parando de falar. Teresa é a minha tia, acho que ela é irmã da minha mãe, eu ainda me atrapalho nessas coisas da família. É que ela também chama a minha vó de mãe. Só sei que o pai ficou mudo, ele fazia que sim ou que não com a cabeça, mas não saía nenhuma palavra da boca. Lá no fundo eu conseguia escutar uma voz bem fininha, a tia ficava falando um monte de coisas. Eu acho que ela gritou com o pai porque ele desligou e nem disse tchau ou um beijo pra ti. O pai sentou na mesa junto comigo. E segurou a cabeça com as duas mãos, acho que pra ela não cair do pescoço. Ele tava ainda mais vermelho do que sempre. Eu comecei a desenhar numa folha nova e bem branca. Eu pensei que eu podia dar o desenho novo pra ele, assim ele podia rir um pouco. Eu resolvi desenhar um pássaro grande, com as asas bem abertas. Eu fiz as asas de todas as cores, pelo menos um pouquinho de cada lápis. Menos do vermelho, é claro. E no fundo, eu pintei um céu todinho azul, bem clarinho porque não tinha nenhuma nuvem. Foi o desenho mais lindo que eu já fiz.

De repente os degraus da escada começaram a fazer aquele barulho de que tem gente pisando neles. Era a mãe descendo. Eu senti um gelado na minha barriga quando vi que ela carregava duas malas nas mãos. Eu não gosto desse gelado, eu sinto isso sempre que um dos guris se esconde atrás da porta da aula e, quando eu vou entrar na sala, grita um BU! bem alto. Eu me assusto e fico com muita raiva. A mãe veio até perto da gente e parou pra nos olhar. O pai nem levantou a cabeça, que tava escondida nos braços dele.

Eu vi que a mãe tava muito séria. Eu resolvi dar o desenho pra ela. Pelo menos ela largou uma das malas no chão pra poder pegar a folha. Eu senti um aperto bem aqui no meu peito. E fiquei com muita vontade que ela gostasse do meu desenho de pássaro e dissesse que lindo. Mas acho que ela quis chorar. Talvez ela ache que pássaro assim tão colorido é uma invenção muito maluca e não pode existir. Bem rápido ela pegou as malas e se virou. Eu ouvi quando a porta da frente fechou. O pai também, porque ele levantou a cabeça. Eu não perguntei nada. Mas ele falou bem assim:

- Não te preocupa. Daqui a pouco ela volta.


Vai lá: Novos Contos Imperdíveis - Ed. Nova Prova - Na feira do Livro custa R$27,00

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Rê Transasom, Fê Cabelão, Beta Pinto e Flá Exibida. Escorregando.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O coletivo é muitos. O coletivo anda. O coletivo é massa!


Feio

Dei-me conta da minha feiúra no dia em que abri os olhos para a realidade que me cercava. Me diziam que eu era, digamos assim, simpático e querido. Inocente, não imaginava serem estes eufemismos para uma única, simples e definitiva palavra: feio. Não horrível, ou nojento, ou desprezível. Só feio. A percepção da minha sina veio num dia em que eu seguia de ônibus para casa, na via crúcis diária entre meu trabalho e o reino so far away que resido. A distinta linha de uma empresa desta cidade, cujo nome não convém citar (para resguardo de minha integridade física e contábil), passava por um dos bairros nobres da capital dos gaúchos: a Manhattan gaudéria, com algo da Recoleta portenha, totalmente in. Ali que eu subia. Havia dentro daquele ônibus uma certa quantidade de populares, mas também a presença de muita gente bonita. Bonita não, linda. Loiras algo próximas do que vemos em revistas, portando bolsas com as letrinhas F, CC, LV; alguns rapagões perfumados; pessoas de bem; contribuintes da maior faixa do imposto de renda, filhos de gente que, quando investigada, é pela Polícia Federal. Só coisa graúda. É, subiam vários destes. Eu, bem feliz, jurava fazer parte dessa turma. Só que eles desciam poucas quadras adiante, antes do motorista dar uma volta doida e trocar de rua; todas as lindonas e os bonitões desapareciam pelo caminho. Já na nova avenida, que parecia interminável, os medianos saltavam – pessoas comuns, nem lindas nem desprovidas de estética. Aos pouquinhos estes iam sumindo. Depois de mais de meia hora de sofrimento, trocando novamente de avenida, já distante do centro e bem próximo do subúrbio, dava uma olhada ao meu redor, e o que descobria? Sim, só sobrava gente feia. A propósito, uma vez tive uma namorada que dizia que todos os feios de uma cidade se encontram na rodoviária. Acho que ela tinha razão, mas desconfio que também freqüentavam o meu ônibus. Bem, voltando ao ponto em que estava: nesta nova avenida, já perto de onde o diabo perdeu as botas, ficavam os feios. Desciam acompanhados de toda a sua desgraceira. Foi aí que eu percebi. Após descerem todos os feios, entrando na fase final da viagem do expresso do inferno, permaneciam só os raio-que-o-parta. Coisa deprimente de se ver. Depois de olhar para um lado e para o outro, entendi que eu fazia parte daquela turma e não era por acaso.

Sentou do meu lado aquilo que eu tranquilamente chamaria de forminha de fazer diabo, sim, porque era a mulher mais feia que eu tivera oportunidade de ver na minha vida e que se destaca ali no meio daquela gente, não pela gritante feiúra, mas pelo cheiro que emanava. Não, não é esse cheiro que estás pensando, definitivamente não! Era o melhor cheiro de mulher que eu já senti. Cheiro de fêmea mexeu com meu instinto mais primata, povoou minha mente com fantasias devastadoras e eu a me perguntar como pode esse demônio ser capaz de me fazer ficar aqui além do necessário?(já que levantar seria uma tarefa um tanto humilhante naquele momento).

Humilhante porque visto sempre esse uniforme roto, um macacão azul já desbotado que me obrigam a vestir para trabalhar limpando as ruas sujas da cidade. Sujas como a minha cabeça agora, povoada de pensamentos sórdidos que incluem o tribufu cheiroso ao meu lado. Me levantar seria assinar embaixo a confissão de um tarado, meu pau prontinho para me denunciar, quase rasgando o tecido, barraca armada como dizem. Mas como podia cheirar tão loucamente bem essa filha do demo? Observei canto de olho. Ela com o olhar fixo lá na frente. Pensei o que será que passa na cabeça. Baixei os olhos. Vi um pedaço do peito. Grande, farto, mole, caído. É de lá que vem esse cheiro, do meio dos peitos caídos. Tá me dando um troço. Sou capaz de agora mesmo me atracar na peste. Ela nem se mexe. Vejo as mãos. Os dedos gordos e uma aliança enterrada entre as carnes do dedo da mão direita. É noiva a desgraça. Noiva de um corajoso que encara o diabo de frente, sem medo de se afogar nesse monte de carne flácida. To achando divertido isso tudo. E me vem uma sensação de poder, me sinto galo, posso tudo, vou encarar. De repente a mão gorda puxando a cordinha. Vai descer, justo agora! Se foi a belzebu, sem nem um olhar na minha direção. Fiquei eu, sozinho, largado, com a barraca murchando aos poucos. Esse sou eu. Feio.

O Ráinque é azul. A Fabimônica é vermelha. A Frá é verde. E o coletivo é da cor de todas as cores.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

WISH LIST

1. embrace your demons

2. give a damn

3. get a move on

4. feel it to believe it

5. rock, rally and make a difference

6. be late. time is a luxury

7. choose your moment

8. if he resists, practice hypnosis

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Paraíso Perfeito


“Amor! Me ajuda aqui com as compras! E temos companhia!

Júlio larga a picanha que está salgando na gamela de madeira. Lava as mãos e as enxuga na calça de abrigo. Abre a porta de tela da cozinha e caminha em direção à mulher. Cigarras gritam correndo do sol ardente do início da tarde. Júlio de repente pára, ao lado do pé de bergamotas. E espera as duas mulheres se aproximarem.

“Amor, deixa eu te apresentar. Essa é a Helena, veio visitar uma amiga aqui no condomínio e está perdida. Eu sempre digo que tem que botar nomes nessas estradinhas, aí a gente pode dar um endereço pras pessoas! Helena, esse é o Júlio, meu marido.”
“ Prazer, Júlio. Muito lindo o sítio de vocês.”
“ Ah, pois é. Obrigado.”
“Amor, olha que coincidência, a Helena é tua colega, também é psicóloga!”
“É? Coincidência mesmo.”
“ Vamos fazer o seguinte: Helena, me dá teu celular que vou botar lá dentro pra carregar e aí tu ligas pra tua amiga. Enquanto isso, amor, leva ela pra dar uma volta até a piscina e conhecer as crianças.”
“Claro.”

Isso não é um comercial de margarina. Mas parece. Isso é uma realidade chamada Paraíso Perfeito e fica a poucos quilômetros da cidade, mais precisamente em um condomínio de pequenos sítios. É lá que você pode encontrar a família Fernandes Bastos nos finais de semana. É lá que eles exercem seu melhor papel: o de família modelo. Sim, modelo. Porque lá eles plantam flores, fazem churrascos, riem na piscina. Nos finais de tarde, com mantas xadrez sobre as pernas, sentados nas redes, assistem ao pôr-do-sol grudados uns aos outros. Luiza, Júlio e o casal de filhos. Os filhos da margarina. O casalzinho que atrai todos os olhares e atenções, com seus cabelos de cachos loiros e os olhinhos verdes amendoados, pequenas cópias da mãe. Os quatro se apaixonaram à primeira vista pelo lugar e concordaram felizes sobre o nome que iriam lhe dar. Era um lugar sagrado. Luiza, apesar da rotina estafante de médica, arranjara tempo para decorar a casa com bom gosto e todo conforto. Tudo combinava: as cores, os padrões, os quadros cercando a lareira de pedras. E também os muitos porta-retratos espalhados em simetrias cuidadosas, revelando os largos sorrisos, o véu da noiva, o palquinho da escola, casacos coloridos na neve.

A nova companhia e o rei do castelo encantado. Os dois continuavam parados ao lado da bergamoteira. Não haviam se mexido. Pairava entre eles um vento silencioso, um estranhamento gelado envolvia a cena. Quatro olhos se fitavam enredando pensamentos, mensagens silenciosas cruzando a teia.

“Helena! Amor! Querem um café quentinho?”
“ Senti o cheirinho aqui de fora. Estava mesmo dizendo pro Júlio que sou louca por café. De qualquer tipo, cappuccino, cortado, moka... eu não vivo sem café! Deve ser por isso que estou sempre tão elétrica, falando demais, é muita cafeína pra um só corpo. Mas acho que por hoje já bebi o bastante, obrigada.”
“ E, além disso, a Helena quer ligar logo para a amiga, ela deve estar preocupada. O telefone já está carregando? Acho que tu já podes ligar, né?”
“ Então entra aqui, Helena. Tu ligas e eu aproveito pra te mostrar a casa.”

O tempo parece passar mais devagar aqui no Paraíso. Os minutos se estiram por entre as árvores. Enquanto as duas novas amigas parecem estar num playground de sofás, tecidos e objetos, Júlio aperta entre os dedos as folhas verdes e duras que pendem dos galhos. Tem o olhar fixo. Parece que as folhas lhe dizem coisas que ele tem que se esforçar para entender. Charadas. Ele precisa responder rápido para continuar vencendo um jogo que não sabe porque resolveu começar. Não tem certeza se o prêmio para o primeiro lugar é assim tão valioso. Se não pensar logo, vai perder. As respostas também chegam muito devagar em Paraíso. Talvez porque não haja muitas perguntas elas perderam o hábito de aparecer. Aqui é o Paraíso, não se corre o risco de ter que modificar alguma coisa por causa de perguntas. Elas já foram todas respondidas.

“ Amor, tá parado aí ainda? Viu só, Helena, esse lugar é mágico. Faz a gente viajar sem sair do lugar. Olha o Júlio aí, nem parece meu maridinho sempre preocupado, envolvido com seus pacientes e suas neuroses! Tu deves saber bem como é.”
“ Sei sim, é literalmente uma loucura a nossa vida. Bom, Luiza, muito obrigada, vocês foram tão gentis. Adorei conhecer vocês e esse lugar tão lindo.”
“ Que bom que tu gostaste! Agora sempre que visitar tua amiga podes aparecer. Né, amor?”
“ Claro, claro que sim.”

Helena manobra o carro no gramado em frente à casa. Júlio observa os movimentos de perto enquanto caminha até a porteira. A cabeça baixa, concentra-se na tarefa de abrir o cadeado. Os gestos acompanham a vagareza do tempo, câmera lenta ao som das cigarras. Arrasta o portão lateralmente, hoje está mais pesado . O carro se aproxima e Helena abaixa o vidro. Faz calor. O rosto dele está franzido, os olhos parecem não se acostumar à tanta claridade. Ela tem a boca entreaberta, um ensaio de sorriso, a ironia alojada entre os dentes.

“ Eu só queria saber como era o Paraíso Perfeito. Te ligo amanhã, na mesma hora de sempre.”

Arranca o carro e uma poeira dourada sobe no ar. Imerso na nuvem que lhe resseca a boca, ele consegue dizer:

“ Por essa tu me pagas, sua puta.”




Vai lá: Fatal Atraction - Dir. Adrian Lyne - Paramount - 1987 - 120 mins.

No caso, decida, né?


Três e meia da tarde. Sol escaldante lá fora e dentro da minha cabeça. Eu aqui, perdendo trinta minutos preciosos da minha vida, sentada, com esse vento morno soprando pensamentos em todas as direções do meu crânio. Eu preciso decidir, não pode passar de hoje. Sempre decidindo, um inferno. Por que pra mim tudo sempre é tão difícil e complicado? Não daria pra ir só acordando comendo dormindo levando? Todo o peso do mundo na minha balança e o tempo não pára de passar. Passa rápido demais. Eu não tive nem chance. Como é que agora vou estragar tudo? Sim, porque vou arruinar com o castelo que recém tinha conseguido erguer, vou deixar a onda vir com a mais alta das marés, derrubar tudo, as torres, pontes, tudo. Eu preciso terminar a faculdade primeiro. Que emprego vão me dar sem o diploma e nenhuma experiência? Com que dinheiro? A mãe eu tiro de letra, ela se acostumou com tudo na vida, se acostuma com mais essa também, depois até gosta e ajuda. Mas e o Antônio? O Antônio não, ele sempre disse que não queria. Tem o estágio, tem o time de futebol e os treinos. Eu segurando tudo, guardando o segredo, a tontura e o enjôo, tudo apertado socado no peito e no estômago. Mais um dia sem decidir. Até quando?

Eu já ajudei a Su a vender um monte desses conjunto. Eu consigo vender, guria, tu não imagina. Eu tenho assim, como se diz, em primeiro lugar, simpatia pelas pessoa, né? Elas olham assim pra mim e sentem simpatia por mim. Depois eu tenho assim, vamos dizer, bastante noções de educação e fineza. Eu trabalhei quatorze anos pra dona Nilce Maisonnave, ia na casa dela atender ela e as filha. E a gente observa, né? Tem que observar porque aprende os modo, as fala, o que é importante é prestar atenção e aprender, no caso. Eu não gosto de ficar muito tempo assim junto com pobre sabe? Com pessoa que não sabe falar ou atender as cliente. Outro dia essa outra aí me disse bem assim: veio uma mulher te procurar. Mulher. Devia dizer uma senhora né, não uma mulher. Tem que escolher as palavra, se não fica feio. Tu viu aquele conjunto preto ali na prateleira de baixo? Bel, alcança aqui o preto pra ela ver, só ver, ela não vai comprar. Eu me comprei um desse, só que azul, no caso, assim bem forte, sabe? Porque eu sou nega mas sou chique, é féshou, não é assim que as madame tudo dizem? Comprei pra sair na noite, boto o blazer em cima, ó os peito, porque eu sei usar, é só mostrar um pouco dos peito, tão meio caído mas esse sutiã levanta ó, ta vendo? É meia-taça. Tem que usar esses que botam os peito pra cima, pra que fazer plástica gastar um dinheirão se tem o sutiã? Meus cabelo eu mesmo faço, no caso essas trança a Su que me botou, eu adoro. Não é porque não tem dinheiro que a pessoa não sabe usar pra ficar bonito né? A Su faz em duas ou três vezes pra ti, cliente, né?

Mais tarde vou ligar pra a Juliana. Ela vai me entender, eu sei. Porque a Leninha. A Leninha acha que sabe tudo e eu não posso mais ficar ouvindo sermão, isso não é ajuda de amiga, isso não. Não vou mais atender os telefonemas dela. E aí, já decidiu? Não, Leninha, não decidi ainda não, pára de me perguntar isso, porque minha mente mais parece um sino de igreja badalando decide decide decide. Eu não entendo o Antônio. Ele disse que morreria por mim. Eu sei, quando a gente se apaixona a gente finge que morreria, a gente morre um pouquinho nos desesperos do amor. Mas depois que eles passam, as urgências se acalmam, como disse a tia Norma, a vida fica muito mais simples. A tia Norma agora não pode saber, vai correndo contar pra mãe, pro teu próprio bem, minha menina levada. Mas eu não decidi ainda. Quem vai me dar o dinheiro, o Antônio não, eu já posso ouvir eu te falei, eu te disse que não queria, tu que tinha que cuidar, agora resolve sozinha. O médico. Parece que é numa galeria no centro, eu já ouvi falar, a prima da Ju fez uma vez. O médico diz não vai doer, relaxa, isso, só a picadinha da anestesia, agora vai sentir uma cólica forte, prontinho, tá tudo bem, já pagou, né, então é só esperar na salinha e depois pode ir, não esquece de tomar o remédio. Agora é a cruz e espada, a vida que vem ou a que vai, o assassino ou o príncipe.

Essa tatuagem que tu tem aqui na mão, a estrela, é uma proteção, viu? Se for botar um anel tem que primeiro pedir permissão pros orixá, porque estrela é luz e com luz tu sabe que não se brinca, guria. Aqui tem uns anel muito bonito, tu já viu? A Su manda buscar de São Paulo, tu conhece São Paulo? Ah, eu queria conhecer porque tem essas rua só de bijuteria bem barata, sabe? Não dá pra ver, guria, tem umas ali que parece jóia. Eu peguei um anel que tem umas pedra assim desse tamanho ó, parece uns brilhante enorme, eu nem uso se vou sair de ônibus. Só se for com o taxista lá da lomba, boa gente sabe, ajuda todo mundo e faz as corrida pra gente pagar com serviço, com comida, o que tu tiver, muito bacana o Aldair. No caso tu liga e ele vai, eu já paguei ele até com umas carne que o meu cunhado tinha comprado prum churrasquinho, mas caiu uma chuva, guria, te lembra aquele domingo que não parou de chover um minuto? Agora pro fim do ano eu vou construir uma cobertura, sabe, de madeira mesmo, já tem até os material que no caso eu consegui com a irmã da minha comadre, que fez um puxadinho atrás da casa porque a filha casou com um cara que todo mundo sabia que era traficante, só que a guria gostou, né, fazer o que, o cara no caso dava tudo pra ela, sabe, até pra mãe dela também, comprou umas colcha daquelas bonita, de cetim, guria, coisa mais linda. Só que o cara foi preso, com essas coisa de droga não dá pra brincar, guria, e agora a coitada da outra ta lá, teve que voltar pra casa da mãe porque na rua que eles moravam não deu mais, ficou brabo, né? Todo mundo olha de cara torta pra ela, né, como se fosse tudo santo, é bem capaz, são tudo drogado também.

E se eu vendesse o anel que o pai me deu de quinze anos. Não vão pagar nada. Tia Norma, tia Norma. Agora mesmo que eu precisava de ti, minha tia. Não chora menina, com essa carinha de boneca logo logo tá de namorado novo. Ih, ainda tem muito rapaz pra se apaixonar e chorar, agora lava esse rosto que vai ficar toda inchada, parecendo o homem elefante. Que será que ela diria se eu tivesse coragem de contar. Me ajudaria a decidir. Tia Norma sempre como uma bula do remédio da vida, sabe a dose certa pra tudo, os intervalos e tempos de cura das dores. Mas agora não, a menina levada não pode trazer tamanha decepção para a tia anjo doutora. Decepção, isso que eu sou. Eu não sei cuidar da minha vida e acabei deixando um outro ser querer morar justo dentro do meu corpo. Como é que vou fazer pra estudar e cuidar de uma outra criança, eu não quero ser sozinha, sim, porque acaba tudo, acaba Antônio e as baladas e as gurias e os filmes no shopping e eu filha. Eu mãe não existe, eu pernas abertas expulsando sozinha o que o Antônio colocou aqui dentro também não. Se eu morresse não existiria ninguém. Mas eu não quero morrer.

- E aí, guria. Já decidiu?
- Não...Quer dizer, decidiu o que?
- Vai botar vermelho ou misturinha?




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quarta-feira, 4 de abril de 2007

Imperdível...

Espirros

Ele espirrava dezesseis vezes ao acordar. Toda manhã, exatamente igual desde a adolescência. A mãe sempre fazendo um comentário meu deus, mas por que não vai ao médico, quantas vezes já disse. Ele nem percebia mais, era assim mesmo, a metralhadora de espirros fazia parte da personalidade e da rotina dele. Mais ou menos como tomar o café com três colheres bem cheias de açúcar, cortar as unhas dos pés sentado na privada ou não jogar fora os jornais diários durante meses. Primeiro vinha uma sequência rápida de seis espirros, um atrás do outro, sem pausa para descanso. Quando os olhos começavam a voltar ao normal, abrindo-se por inteiro, mais um ataque, mais seis pequenas rajadas, com intervalos um pouco maiores. Ao sentar na cama, os derradeiros quatro alívios, precedidos sempre de um grito, um rugido que lhe fazia expulsar líquidos e sons em sincronia. Pronto. Agora podia levantar da cama, seu dia oficialmente inaugurado. Ia lento, como lesma, direto ao banheiro dar início aos trabalhos do despertar. A cabeça não funcionava muito bem nessa hora. A primeira atividade mental era tentar lembrar se tinha deixado todos os livros da faculdade já dentro da pasta, uns minutos a mais de descanso se sim. Passeava mentalmente pela folha de horários e detia-se no dia que estava começando, do primeiro ao quinto período, sabia toda a sequência. O xixi saía junto com o bocejo. Depois engatava a primeira e tudo ia acontecendo num ritmo mais acelerado: o banho, os minutos escovando os dentes e tentando domar os cabelos fartos e crespos com um pouco de gel. A roupa estava sempre preparada, escolhida desde a noite anterior, como um corpo vestido em cima da poltrona da sala. Os tênis surrados. O achocolatado bem escuro, sabor matinal de infância que só ele sabia preparar. A bicicleta vindo da área tec tec tec até a porta, a mochila nas costas. Todo dia igual ao outro.

Ela achava engraçado aquele negócio de ele espirrar igual e cronometradamente todas as manhãs. Pessoas e seus estranhos rituais. Sentia uma certa ternura, quase nunca continha o sorriso, pensando que ele parecia um menino ranhento, aquele que nem se importa com o que sai do nariz, limpa com a manga mesmo. Mas às vezes, dependendo do humor em que acordava, chegava a experimentar uma espécie de irritação, não podia fazer um pouco menos de barulho assim tão cedo de manhã? Foi ela quem contou quantos espirros eram. Mas ele nunca se deu conta, não sabe até hoje que são dezesseis.

Naquela manhã de sábado tudo tinha se repetido. Os espirros e os silêncios dos dois. Os silêncios da companhia. Cada um com seus pensamentos voltados aos ritmos diferentes de vida, ela sempre se preparando para ouvir os pacientes buscando respostas, ele para assistir às aulas na faculdade e achar maneiras de ganhar algum dinheiro com a banda que tocava rock’n’roll. Ambos meio sem rumo no momento, achando que tudo isso é muito pouco, que eles podem mais, mas a vida não ajuda muito, por isso seguem, dormindo e acordando, vendo os minutos passar.

Ela estava saindo do banho, toalha enrolada, quando o telefone tocou. No mesmo segundo em que ele disse alô ela pensou e aí meu, beleza? Ele disse: e aí meu, beleza? Ela sorriu, vitoriosa no jogo de adivinhação que tinha acabado de vencer de si mesma e a voz metálica dele seguiu falando, traçando os planos do encontro que se seguiria. Ela pensou, passando creme hidratante nas pernas, que gostaria de um dia poder ir com ele nessas reuniões onde ficavam todos debatendo a divulgação dos shows, orçamentos, equipamentos de som, a iluminação do palco. Era uma misturança de vozes, alteradas e altas em alguns momentos, em especial nos de falar sobre as finanças, a grana sempre tão curta. Ela até poderia ajudar, eles pareciam tão amadores às vezes. O telefone tocou mais uma vez enquanto ela vestia a calcinha e o sutiã. E aí meu, beleza? Ele explicou ao outro lado da linha qual ônibus pegar, qual parada descer, em que rua dobrar. Ela fazia mentalmente todo o trajeto até o prédio deles vestindo a camiseta preta e enfiando o cinto no jeans. Ouviu todos os planos te espero lá embaixo em dez minutos, beleza?, e ficou imaginando se ele também prestava atenção nas conversas telefônicas dela. Talvez todas as noites, lá pelas oito, quando ela liga para o pai, ele pense em sincronia com a voz dela oi papi, como passou o dia hoje? Pessoas e seus estranhos rituais. Ela concluiu que a vida é previsível demais quando calçou as sapatilhas novas de couro macio. Olhou-se no espelho e se achou tão pequena. Ficou na ponta dos pés, por que insistia nos sapatos rasteiros de boneca se parecia ainda menor? Os saltos alongam as pernas, tinha lido na revista. Passando os dedos entre os cabelos molhados ouviu o barulho da bicicleta dele atravessando a sala, o tec tec tec lento até a porta, dez minutos já tinham se passado então. Juntou os cabelos num coque para escutar a porta batendo, o tec tec tec cada vez mais longe pelo corredor do prédio. Tchau, ela disse. Mas ninguém ouviu.

Decidiu fazer a feira, era sábado e um vento abafado anunciava uma tarde cinzenta. Pegou a bolsa no sofá da sala, fechou as janelas, vai chover, e resolveu não levar os óculos escuros. Pegou o elevador barulhento até o térreo. Quando abriu a porta quase derrubou uma bicicleta. A dele. Ao se olharem, ele com uma pilha de folhetos recém tirados da caixa de correspondência na mão, não souberam o que dizer. Ele disparou um que saco, esses caras devem pensar vamos encher o neguinho do 702 de pizza grande e refri dois litros de graça e já que a pia dele tá entupida vamos oferecer nossos encanadores porque afinal de contas ele cozinha de vez em quando e um dia vai precisar da entrega de gás 24 horas que a gente faz. Sem querer, o silêncio entre eles tinha acabado. O texto para o grande ato tinha vindo dos panfletos.

Ela riu numa combinação de timidez e esperteza, a menina e a mulher, a que aprende e a que ensina. Quantos anos teria ele? Não mais que vinte e dois. Os cabelos crespos, um anjo moreno que espirra dezesseis vezes quando acorda. Mas e agora? O que é que se diz para um anjo quando se sente essa vontade maluca de falar não sei o que, uma necessidade tola de expressar o desejo de conhecê-lo melhor? Enquanto ele foi se afastando tec tec tec em direção ao portão do edifício ela conseguiu gritar que achava que aqueles caras pensavam que a mina do 701 também precisava das pizzas, do encanador e do gás, a mão dela abanando no ar os folhetos. Ele respondeu sorrindo e abriu o portão para ela. E para eles também.

Depois de um mês ele entregou as chaves do 702 na imobiliária e ela arranjou um espaço para as roupas dele no armário. Eles ainda acham que a vida pode ser melhor. Os pacientes não são muitos e a banda de rock não decolou. Mas o sorriso deles tem algo diferente, toda noite, quando ele vem chegando tec tec tec pelo corredor, abre a porta do apartamento e escuta ela dizer e aí meu, beleza?




Vai lá: 30 contos IMPERDÍVEIS - Org. Charles Kiefer - Ed. Mercado Aberto - 2006

O primeiro conto a gente nunca esquece.


Beatrice

Tinha prometido a si mesmo que nunca mais beberia tequila, sempre acabava mal. Invariavelmente se entorpecia de tal maneira que via coisas nas paredes. Dessa vez o anjo. Imóvel. Gigante. Dominando a parede do quarto. Já nem esfregava mais os olhos para ter certeza de que não era real, estava acostumado aos efeitos alucinógenos do líquido mexicano. Tentou lembrar de tudo, botou o filme na mente e apertou o REW.

Entrou no bar como quem marcha soldado. Já era tarde e tinha tantos pensamentos que lhe era confuso controlar as pernas e os próximos passos. Eram muitos os sons a zumbir, enxame de gentes e música. No escuro-fumaça, no empurra dos corpos meio-vagão do metrô, conseguiu alcançar uma nesga de balcão. Sentiu a fórmica vermelha grudar-lhe os cotovelos e pensou que andava de saco cheio de sentar em balcões, de tantas rodoviárias no caminho, tantas coxinhas de galinha de tresontontem caindo no estômago. Merda de vida.

- Vai beber o que, parceiro?
- Uma coca. Normal. – odiava da light, o amargo enrugando as papilas.
- Gelo e limão?
- Só gelo.

Conseguiu fisgar o maço amassado quase dobrado do bolso aquele em que enfiava tudo: a chave de casa, a carteira de couro marrom, o celular que deixava sempre desligado e os cigarros. Deus abençoe as calças cargo com seus profundos bolsos laterais, que salvam alguns homens da triste dependência de ter sempre uma mulher ao lado para carregar seus pertences nas bolsas. Pelo menos nesse aspecto sentia-se um homem autônomo. O fogo era fósforo e, fiat lux, inalou profundo. Observava as pessoas como se fizesse parte de um outro mundo, como se fosse o elemento que não pertence ao grupo, aquele que a gente tem que riscar fora, não combina. Expelindo a fumaça de uma longa tragada imaginou que seria sempre o odd man out, mas quem se importa? Não ele. Não fazia mesmo questão de ser parte daquele amontoado de gente que nem sabe porque existe. E por acaso ele sabia?

No meio de toda a sauna de cheiros e sons, embaçada a visão, percebeu, de longe cada vez mais perto, que ela tinha os olhos borrados de preto. O cabelo negro, solto, alcançava os seios e se espalhava pelos ombros. Usava um vestido azul que parecia refletir nos olhos tão intensa era a cor daquelas duas turquesas contrastando com o borrão preto. Era um olhar perdido, mas insistente. Quase uma invasão. Sentiu-se desnudar quando ela o mirou, certeira.

- Tem fogo?

Não respondeu. Apenas riscou o fósforo e acendeu o cigarro.

- Posso sentar?
- Senta aqui no meu colo – pensou em dizer. Mas aí se achou o maior dos cafajestes com aquele texto escroto que provavelmente poderia ter sido dito por qualquer outro cara daquele bar na mesma situação. Só que ele não pertencia, lembrou, e ficou com um trivial claro que sim.

Não sabia como continuar a conversa, o mundo dele era feito de balcões solitários, ninguém para conversar a não ser um atendente de boteco. Dava uma angústia pesada observar sua vidinha passando sem rastro e sem rumo. Com o canto do olho percebeu que ela olhava para todos os lados, uma antena de radar. Não sabia o que dizer para fazê-la virar a cabeça em sua direção, queria olhar de novo o azul dos olhos, agora mais de perto. A caixa de fósforos girava nas mãos e ele pensou em ler para ela a dica de como deixar a batata frita sequinha impressa no fundo. Que merda.

- Tu pode colocar minha mochila aí do teu lado?
Ele olhou o banco vazio à sua direita. Pegou a mochila jeans sem esforço. Não pesava quase nada e tinha um barulho de chocalho metálico. O que será que ela carregava ali dentro?

- Tu não tem medo que roubem?

Ela primeiro soltou a tragada, uma fumaça encorpada se espalhou entre eles, névoa densa pairando no ar.

- Não tem nada pra roubar. De grana eu só tenho dez pila aqui no meu bolso e aí só tem um monte de tinta spray. Tu curte grafite?

Se eu curto grafite, pensou. Achava que sim, talvez. Não prestava muita atenção nos muros quando caminhava. A cabeça ia sempre baixa, mergulhada no som alto dos fones de ouvido. Os pensamentos pareciam saltar das calçadas. Resolveu arriscar:

- Quer beber um lance?
- Tequila.

Do bar era isso que conseguia lembrar. Depois veio a imagem dele chamando o táxi na avenida imensa e vazia, quase amanhecendo. A dificuldade do espaço, as pernas como que sem os ossos, molengas, a tequila correndo nas veias.

- Tu não vem? – ele gritou, a voz lhe saía pastosa.
- Bea! – ele ouviu, lá longe, um eco interurbano no meio – Meu nome é Beeeeea!

O filme acabava ali. STOP. Fechou os olhos, a cabeça doía no exercício de memória. Isso, o nome dela era esse e os cabelos davam-lhe pinceladas no peito nu. Lembrou que ela usava uma correntinha com um globo de espelhos, daqueles de boate. O globinho ia e vinha no ritmo que ela dava à trepada, montada em cima dele. Ele se via refletido em mini pedaços, os mini espelhos lhe fragmentando o rosto, ele todo dividido, bêbado.

Não conseguia lembrar de mais nada, não tinha mais neurônios para seguir tentando. Foi aí que se deu conta que o anjo não desaparecera da parede, alucinação perene? Os olhos azuis lhe espreitavam o pensamento, habitavam seu cérebro escuro. Deteve-se então no enorme desenho, lissergicamente pintado com roxos, laranjas, vermelhos e verdes. O anjo arco-íris dividindo o espaço do quarto com ele. No canto esquerdo da parede, uns dois centímetros acima do rodapé, a assinatura: Beatrice.

Fechou os olhos. E pela primeira vez em muito tempo dormiu sorrindo.



Vai lá: 102 que contam - Org. Charles Kiefer - Ed Nova Prova - 2005