Três e meia da tarde. Sol escaldante lá fora e dentro da minha cabeça. Eu aqui, perdendo trinta minutos preciosos da minha vida, sentada, com esse vento morno soprando pensamentos em todas as direções do meu crânio. Eu preciso decidir, não pode passar de hoje. Sempre decidindo, um inferno. Por que pra mim tudo sempre é tão difícil e complicado? Não daria pra ir só acordando comendo dormindo levando? Todo o peso do mundo na minha balança e o tempo não pára de passar. Passa rápido demais. Eu não tive nem chance. Como é que agora vou estragar tudo? Sim, porque vou arruinar com o castelo que recém tinha conseguido erguer, vou deixar a onda vir com a mais alta das marés, derrubar tudo, as torres, pontes, tudo. Eu preciso terminar a faculdade primeiro. Que emprego vão me dar sem o diploma e nenhuma experiência? Com que dinheiro? A mãe eu tiro de letra, ela se acostumou com tudo na vida, se acostuma com mais essa também, depois até gosta e ajuda. Mas e o Antônio? O Antônio não, ele sempre disse que não queria. Tem o estágio, tem o time de futebol e os treinos. Eu segurando tudo, guardando o segredo, a tontura e o enjôo, tudo apertado socado no peito e no estômago. Mais um dia sem decidir. Até quando?
Eu já ajudei a Su a vender um monte desses conjunto. Eu consigo vender, guria, tu não imagina. Eu tenho assim, como se diz, em primeiro lugar, simpatia pelas pessoa, né? Elas olham assim pra mim e sentem simpatia por mim. Depois eu tenho assim, vamos dizer, bastante noções de educação e fineza. Eu trabalhei quatorze anos pra dona Nilce Maisonnave, ia na casa dela atender ela e as filha. E a gente observa, né? Tem que observar porque aprende os modo, as fala, o que é importante é prestar atenção e aprender, no caso. Eu não gosto de ficar muito tempo assim junto com pobre sabe? Com pessoa que não sabe falar ou atender as cliente. Outro dia essa outra aí me disse bem assim: veio uma mulher te procurar. Mulher. Devia dizer uma senhora né, não uma mulher. Tem que escolher as palavra, se não fica feio. Tu viu aquele conjunto preto ali na prateleira de baixo? Bel, alcança aqui o preto pra ela ver, só ver, ela não vai comprar. Eu me comprei um desse, só que azul, no caso, assim bem forte, sabe? Porque eu sou nega mas sou chique, é féshou, não é assim que as madame tudo dizem? Comprei pra sair na noite, boto o blazer em cima, ó os peito, porque eu sei usar, é só mostrar um pouco dos peito, tão meio caído mas esse sutiã levanta ó, ta vendo? É meia-taça. Tem que usar esses que botam os peito pra cima, pra que fazer plástica gastar um dinheirão se tem o sutiã? Meus cabelo eu mesmo faço, no caso essas trança a Su que me botou, eu adoro. Não é porque não tem dinheiro que a pessoa não sabe usar pra ficar bonito né? A Su faz em duas ou três vezes pra ti, cliente, né?
Mais tarde vou ligar pra a Juliana. Ela vai me entender, eu sei. Porque a Leninha. A Leninha acha que sabe tudo e eu não posso mais ficar ouvindo sermão, isso não é ajuda de amiga, isso não. Não vou mais atender os telefonemas dela. E aí, já decidiu? Não, Leninha, não decidi ainda não, pára de me perguntar isso, porque minha mente mais parece um sino de igreja badalando decide decide decide. Eu não entendo o Antônio. Ele disse que morreria por mim. Eu sei, quando a gente se apaixona a gente finge que morreria, a gente morre um pouquinho nos desesperos do amor. Mas depois que eles passam, as urgências se acalmam, como disse a tia Norma, a vida fica muito mais simples. A tia Norma agora não pode saber, vai correndo contar pra mãe, pro teu próprio bem, minha menina levada. Mas eu não decidi ainda. Quem vai me dar o dinheiro, o Antônio não, eu já posso ouvir eu te falei, eu te disse que não queria, tu que tinha que cuidar, agora resolve sozinha. O médico. Parece que é numa galeria no centro, eu já ouvi falar, a prima da Ju fez uma vez. O médico diz não vai doer, relaxa, isso, só a picadinha da anestesia, agora vai sentir uma cólica forte, prontinho, tá tudo bem, já pagou, né, então é só esperar na salinha e depois pode ir, não esquece de tomar o remédio. Agora é a cruz e espada, a vida que vem ou a que vai, o assassino ou o príncipe.
Essa tatuagem que tu tem aqui na mão, a estrela, é uma proteção, viu? Se for botar um anel tem que primeiro pedir permissão pros orixá, porque estrela é luz e com luz tu sabe que não se brinca, guria. Aqui tem uns anel muito bonito, tu já viu? A Su manda buscar de São Paulo, tu conhece São Paulo? Ah, eu queria conhecer porque tem essas rua só de bijuteria bem barata, sabe? Não dá pra ver, guria, tem umas ali que parece jóia. Eu peguei um anel que tem umas pedra assim desse tamanho ó, parece uns brilhante enorme, eu nem uso se vou sair de ônibus. Só se for com o taxista lá da lomba, boa gente sabe, ajuda todo mundo e faz as corrida pra gente pagar com serviço, com comida, o que tu tiver, muito bacana o Aldair. No caso tu liga e ele vai, eu já paguei ele até com umas carne que o meu cunhado tinha comprado prum churrasquinho, mas caiu uma chuva, guria, te lembra aquele domingo que não parou de chover um minuto? Agora pro fim do ano eu vou construir uma cobertura, sabe, de madeira mesmo, já tem até os material que no caso eu consegui com a irmã da minha comadre, que fez um puxadinho atrás da casa porque a filha casou com um cara que todo mundo sabia que era traficante, só que a guria gostou, né, fazer o que, o cara no caso dava tudo pra ela, sabe, até pra mãe dela também, comprou umas colcha daquelas bonita, de cetim, guria, coisa mais linda. Só que o cara foi preso, com essas coisa de droga não dá pra brincar, guria, e agora a coitada da outra ta lá, teve que voltar pra casa da mãe porque na rua que eles moravam não deu mais, ficou brabo, né? Todo mundo olha de cara torta pra ela, né, como se fosse tudo santo, é bem capaz, são tudo drogado também.
E se eu vendesse o anel que o pai me deu de quinze anos. Não vão pagar nada. Tia Norma, tia Norma. Agora mesmo que eu precisava de ti, minha tia. Não chora menina, com essa carinha de boneca logo logo tá de namorado novo. Ih, ainda tem muito rapaz pra se apaixonar e chorar, agora lava esse rosto que vai ficar toda inchada, parecendo o homem elefante. Que será que ela diria se eu tivesse coragem de contar. Me ajudaria a decidir. Tia Norma sempre como uma bula do remédio da vida, sabe a dose certa pra tudo, os intervalos e tempos de cura das dores. Mas agora não, a menina levada não pode trazer tamanha decepção para a tia anjo doutora. Decepção, isso que eu sou. Eu não sei cuidar da minha vida e acabei deixando um outro ser querer morar justo dentro do meu corpo. Como é que vou fazer pra estudar e cuidar de uma outra criança, eu não quero ser sozinha, sim, porque acaba tudo, acaba Antônio e as baladas e as gurias e os filmes no shopping e eu filha. Eu mãe não existe, eu pernas abertas expulsando sozinha o que o Antônio colocou aqui dentro também não. Se eu morresse não existiria ninguém. Mas eu não quero morrer.
- E aí, guria. Já decidiu?
- Não...Quer dizer, decidiu o que?
- Vai botar vermelho ou misturinha?
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