Beatrice
Tinha prometido a si mesmo que nunca mais beberia tequila, sempre acabava mal. Invariavelmente se entorpecia de tal maneira que via coisas nas paredes. Dessa vez o anjo. Imóvel. Gigante. Dominando a parede do quarto. Já nem esfregava mais os olhos para ter certeza de que não era real, estava acostumado aos efeitos alucinógenos do líquido mexicano. Tentou lembrar de tudo, botou o filme na mente e apertou o REW.
Entrou no bar como quem marcha soldado. Já era tarde e tinha tantos pensamentos que lhe era confuso controlar as pernas e os próximos passos. Eram muitos os sons a zumbir, enxame de gentes e música. No escuro-fumaça, no empurra dos corpos meio-vagão do metrô, conseguiu alcançar uma nesga de balcão. Sentiu a fórmica vermelha grudar-lhe os cotovelos e pensou que andava de saco cheio de sentar em balcões, de tantas rodoviárias no caminho, tantas coxinhas de galinha de tresontontem caindo no estômago. Merda de vida.
- Vai beber o que, parceiro?
- Uma coca. Normal. – odiava da light, o amargo enrugando as papilas.
- Gelo e limão?
- Só gelo.
Conseguiu fisgar o maço amassado quase dobrado do bolso aquele em que enfiava tudo: a chave de casa, a carteira de couro marrom, o celular que deixava sempre desligado e os cigarros. Deus abençoe as calças cargo com seus profundos bolsos laterais, que salvam alguns homens da triste dependência de ter sempre uma mulher ao lado para carregar seus pertences nas bolsas. Pelo menos nesse aspecto sentia-se um homem autônomo. O fogo era fósforo e, fiat lux, inalou profundo. Observava as pessoas como se fizesse parte de um outro mundo, como se fosse o elemento que não pertence ao grupo, aquele que a gente tem que riscar fora, não combina. Expelindo a fumaça de uma longa tragada imaginou que seria sempre o odd man out, mas quem se importa? Não ele. Não fazia mesmo questão de ser parte daquele amontoado de gente que nem sabe porque existe. E por acaso ele sabia?
No meio de toda a sauna de cheiros e sons, embaçada a visão, percebeu, de longe cada vez mais perto, que ela tinha os olhos borrados de preto. O cabelo negro, solto, alcançava os seios e se espalhava pelos ombros. Usava um vestido azul que parecia refletir nos olhos tão intensa era a cor daquelas duas turquesas contrastando com o borrão preto. Era um olhar perdido, mas insistente. Quase uma invasão. Sentiu-se desnudar quando ela o mirou, certeira.
- Tem fogo?
Não respondeu. Apenas riscou o fósforo e acendeu o cigarro.
- Posso sentar?
- Senta aqui no meu colo – pensou em dizer. Mas aí se achou o maior dos cafajestes com aquele texto escroto que provavelmente poderia ter sido dito por qualquer outro cara daquele bar na mesma situação. Só que ele não pertencia, lembrou, e ficou com um trivial claro que sim.
Não sabia como continuar a conversa, o mundo dele era feito de balcões solitários, ninguém para conversar a não ser um atendente de boteco. Dava uma angústia pesada observar sua vidinha passando sem rastro e sem rumo. Com o canto do olho percebeu que ela olhava para todos os lados, uma antena de radar. Não sabia o que dizer para fazê-la virar a cabeça em sua direção, queria olhar de novo o azul dos olhos, agora mais de perto. A caixa de fósforos girava nas mãos e ele pensou em ler para ela a dica de como deixar a batata frita sequinha impressa no fundo. Que merda.
- Tu pode colocar minha mochila aí do teu lado?
Ele olhou o banco vazio à sua direita. Pegou a mochila jeans sem esforço. Não pesava quase nada e tinha um barulho de chocalho metálico. O que será que ela carregava ali dentro?
- Tu não tem medo que roubem?
Ela primeiro soltou a tragada, uma fumaça encorpada se espalhou entre eles, névoa densa pairando no ar.
- Não tem nada pra roubar. De grana eu só tenho dez pila aqui no meu bolso e aí só tem um monte de tinta spray. Tu curte grafite?
Se eu curto grafite, pensou. Achava que sim, talvez. Não prestava muita atenção nos muros quando caminhava. A cabeça ia sempre baixa, mergulhada no som alto dos fones de ouvido. Os pensamentos pareciam saltar das calçadas. Resolveu arriscar:
- Quer beber um lance?
- Tequila.
Do bar era isso que conseguia lembrar. Depois veio a imagem dele chamando o táxi na avenida imensa e vazia, quase amanhecendo. A dificuldade do espaço, as pernas como que sem os ossos, molengas, a tequila correndo nas veias.
- Tu não vem? – ele gritou, a voz lhe saía pastosa.
- Bea! – ele ouviu, lá longe, um eco interurbano no meio – Meu nome é Beeeeea!
O filme acabava ali. STOP. Fechou os olhos, a cabeça doía no exercício de memória. Isso, o nome dela era esse e os cabelos davam-lhe pinceladas no peito nu. Lembrou que ela usava uma correntinha com um globo de espelhos, daqueles de boate. O globinho ia e vinha no ritmo que ela dava à trepada, montada em cima dele. Ele se via refletido em mini pedaços, os mini espelhos lhe fragmentando o rosto, ele todo dividido, bêbado.
Não conseguia lembrar de mais nada, não tinha mais neurônios para seguir tentando. Foi aí que se deu conta que o anjo não desaparecera da parede, alucinação perene? Os olhos azuis lhe espreitavam o pensamento, habitavam seu cérebro escuro. Deteve-se então no enorme desenho, lissergicamente pintado com roxos, laranjas, vermelhos e verdes. O anjo arco-íris dividindo o espaço do quarto com ele. No canto esquerdo da parede, uns dois centímetros acima do rodapé, a assinatura: Beatrice.
Fechou os olhos. E pela primeira vez em muito tempo dormiu sorrindo.
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