O coletivo é muitos. O coletivo anda. O coletivo é massa!Feio
Dei-me conta da minha feiúra no dia em que abri os olhos para a realidade que me cercava. Me diziam que eu era, digamos assim, simpático e querido. Inocente, não imaginava serem estes eufemismos para uma única, simples e definitiva palavra: feio. Não horrível, ou nojento, ou desprezível. Só feio. A percepção da minha sina veio num dia em que eu seguia de ônibus para casa, na via crúcis diária entre meu trabalho e o reino so far away que resido. A distinta linha de uma empresa desta cidade, cujo nome não convém citar (para resguardo de minha integridade física e contábil), passava por um dos bairros nobres da capital dos gaúchos: a Manhattan gaudéria, com algo da Recoleta portenha, totalmente in. Ali que eu subia. Havia dentro daquele ônibus uma certa quantidade de populares, mas também a presença de muita gente bonita. Bonita não, linda. Loiras algo próximas do que vemos em revistas, portando bolsas com as letrinhas F, CC, LV; alguns rapagões perfumados; pessoas de bem; contribuintes da maior faixa do imposto de renda, filhos de gente que, quando investigada, é pela Polícia Federal. Só coisa graúda. É, subiam vários destes. Eu, bem feliz, jurava fazer parte dessa turma. Só que eles desciam poucas quadras adiante, antes do motorista dar uma volta doida e trocar de rua; todas as lindonas e os bonitões desapareciam pelo caminho. Já na nova avenida, que parecia interminável, os medianos saltavam – pessoas comuns, nem lindas nem desprovidas de estética. Aos pouquinhos estes iam sumindo. Depois de mais de meia hora de sofrimento, trocando novamente de avenida, já distante do centro e bem próximo do subúrbio, dava uma olhada ao meu redor, e o que descobria? Sim, só sobrava gente feia. A propósito, uma vez tive uma namorada que dizia que todos os feios de uma cidade se encontram na rodoviária. Acho que ela tinha razão, mas desconfio que também freqüentavam o meu ônibus. Bem, voltando ao ponto em que estava: nesta nova avenida, já perto de onde o diabo perdeu as botas, ficavam os feios. Desciam acompanhados de toda a sua desgraceira. Foi aí que eu percebi. Após descerem todos os feios, entrando na fase final da viagem do expresso do inferno, permaneciam só os raio-que-o-parta. Coisa deprimente de se ver. Depois de olhar para um lado e para o outro, entendi que eu fazia parte daquela turma e não era por acaso.
Sentou do meu lado aquilo que eu tranquilamente chamaria de forminha de fazer diabo, sim, porque era a mulher mais feia que eu tivera oportunidade de ver na minha vida e que se destaca ali no meio daquela gente, não pela gritante feiúra, mas pelo cheiro que emanava. Não, não é esse cheiro que estás pensando, definitivamente não! Era o melhor cheiro de mulher que eu já senti. Cheiro de fêmea mexeu com meu instinto mais primata, povoou minha mente com fantasias devastadoras e eu a me perguntar como pode esse demônio ser capaz de me fazer ficar aqui além do necessário?(já que levantar seria uma tarefa um tanto humilhante naquele momento).
Humilhante porque visto sempre esse uniforme roto, um macacão azul já desbotado que me obrigam a vestir para trabalhar limpando as ruas sujas da cidade. Sujas como a minha cabeça agora, povoada de pensamentos sórdidos que incluem o tribufu cheiroso ao meu lado. Me levantar seria assinar embaixo a confissão de um tarado, meu pau prontinho para me denunciar, quase rasgando o tecido, barraca armada como dizem. Mas como podia cheirar tão loucamente bem essa filha do demo? Observei canto de olho. Ela com o olhar fixo lá na frente. Pensei o que será que passa na cabeça. Baixei os olhos. Vi um pedaço do peito. Grande, farto, mole, caído. É de lá que vem esse cheiro, do meio dos peitos caídos. Tá me dando um troço. Sou capaz de agora mesmo me atracar na peste. Ela nem se mexe. Vejo as mãos. Os dedos gordos e uma aliança enterrada entre as carnes do dedo da mão direita. É noiva a desgraça. Noiva de um corajoso que encara o diabo de frente, sem medo de se afogar nesse monte de carne flácida. To achando divertido isso tudo. E me vem uma sensação de poder, me sinto galo, posso tudo, vou encarar. De repente a mão gorda puxando a cordinha. Vai descer, justo agora! Se foi a belzebu, sem nem um olhar na minha direção. Fiquei eu, sozinho, largado, com a barraca murchando aos poucos. Esse sou eu. Feio.
O Ráinque é azul. A Fabimônica é vermelha. A Frá é verde. E o coletivo é da cor de todas as cores.
Um comentário:
Não sabia que tu tinha blog, o Ráinque que me mandou o link! Legal ler os contos... esse último que vcs fizeram juntos ficou hilário! Com certeza tem que repetir a receita...
Eliana
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