Elefante verde-água
A mãe um dia chegou assim, do nada, e falou pro pai:
- Olha, Nereu, pra mim chega. Eu vou embora, eu não agüento mais viver aqui dentro dessa casa. Eu vou voltar para Senador Dutra, de onde eu nunca devia ter saído. Já arrumei tudo que é meu nas malas. Vou pegar o ônibus às onze e meia.
A mãe um dia chegou assim, do nada, e falou pro pai:
- Olha, Nereu, pra mim chega. Eu vou embora, eu não agüento mais viver aqui dentro dessa casa. Eu vou voltar para Senador Dutra, de onde eu nunca devia ter saído. Já arrumei tudo que é meu nas malas. Vou pegar o ônibus às onze e meia.
O pai, que já era meio avermelhado, parecia que ia explodir. Ele olhava pra mãe, o jornal aberto nas mãos, como se ela estivesse falando uma outra língua, uma língua que ele não podia entender. E apesar da boca estar meio aberta, ele não falava nada. A cena congelou na minha frente. E eu, que sentada na mesa de jantar fazia desenhos de zoológicos, uns bichos meio doidos que eu inventava, também petrifiquei. Embaralhei os lápis coloridos esperando a reposta do pai. Mas quem falou foi ela:
- Eu sempre te avisei, Nereu. Te disse que essa vida não era pra mim. Te falei tantas vezes que ficar sempre largada e sozinha cuidando da casa não ia dar certo. Mas tu nunca quiseste me escutar. Agora eu vou e tu ficas. A menina também.
A menina sou eu. O lápis vermelho caiu no chão e uma lasquinha encarnada se soltou. Muito azar justo o vermelho cair, eu nunca consigo fazer a ponta dos vermelhos direito, sempre quebra. Além disso, como é que ia desenhar as maçãs nas árvores agora? O pai dobrou o jornal no colo. E dobrou de novo as folhas grandes. E foi fazendo quadrados cada vez menores, o jornal ficou do tamanho de um gibi. Eu não sei como ele vai fazer se quiser ler as notícias de novo. Tá tudo muito amassado. O pai enfim falou:
- Mas Maria Inês, tu não podes sair assim. Como é que vai ser?
A mãe deu uma respirada bem forte. E também revirou os olhos pra cima. As bolinhas pretas que a gente tem nos olhos rodaram várias vezes.
- Como é que vai ser eu não sei. Eu só sei que estou pronta pra ir e não volto mais.
O pai tirou os óculos e esfregou muito o rosto todo, cobriu a cara com as mãozonas e eu pensei que ele ia chorar. Eu não queria ver o pai chorando, eu até pensava que os adultos nunca choravam, só a gente, quando machuca o joelho ou quando tranca o dedo na porta. Depois ele coçou a cabeça. Acho que ele ficou um pouco confuso, com medo de responder. Do jeito que eu fico quando a professora faz umas perguntas na escola e a gente não tem certeza se sabe. Às vezes parece que se a gente coçar a cabeça a resposta vem. Mas ele me olhou sem dizer nada. Eu olhei pra ele. E também não sabia o que falar.
O pai então levantou da cadeira, parecia muito cansado porque fez um esforço enorme com os dois braços pra ficar de pé. Ele veio caminhando na minha direção e parou do meu lado. Ficou olhando o meu desenho. Eu expliquei pra ele que aquele zoológico era diferente porque todos os bichos podiam andar soltos, não tinha jaulas no parque. Por isso os animais podiam escolher as cores que queriam ter. O elefante, por exemplo, queria sempre ser verde-água. Na verdade é minha cor preferida e esse lápis já tá quase terminando, de tanto que eu aponto. Eu não sei se ele entendeu. Ele só deu uma risadinha assim bem de leve, nem deu pra ver os dentes. Ele pegou o telefone, na mesinha que ficava atrás de mim.
- Teresa, sou eu, Nereu. Escuta, eu não sei, a Maria Inês tá com umas idéias malucas de ir embora, de voltar pra Senador. Eu acho que ela não tá bem, ouviu? Eu queria que tu viesse aqui pra falar com ela.
Ele foi parando de falar. Teresa é a minha tia, acho que ela é irmã da minha mãe, eu ainda me atrapalho nessas coisas da família. É que ela também chama a minha vó de mãe. Só sei que o pai ficou mudo, ele fazia que sim ou que não com a cabeça, mas não saía nenhuma palavra da boca. Lá no fundo eu conseguia escutar uma voz bem fininha, a tia ficava falando um monte de coisas. Eu acho que ela gritou com o pai porque ele desligou e nem disse tchau ou um beijo pra ti. O pai sentou na mesa junto comigo. E segurou a cabeça com as duas mãos, acho que pra ela não cair do pescoço. Ele tava ainda mais vermelho do que sempre. Eu comecei a desenhar numa folha nova e bem branca. Eu pensei que eu podia dar o desenho novo pra ele, assim ele podia rir um pouco. Eu resolvi desenhar um pássaro grande, com as asas bem abertas. Eu fiz as asas de todas as cores, pelo menos um pouquinho de cada lápis. Menos do vermelho, é claro. E no fundo, eu pintei um céu todinho azul, bem clarinho porque não tinha nenhuma nuvem. Foi o desenho mais lindo que eu já fiz.
De repente os degraus da escada começaram a fazer aquele barulho de que tem gente pisando neles. Era a mãe descendo. Eu senti um gelado na minha barriga quando vi que ela carregava duas malas nas mãos. Eu não gosto desse gelado, eu sinto isso sempre que um dos guris se esconde atrás da porta da aula e, quando eu vou entrar na sala, grita um BU! bem alto. Eu me assusto e fico com muita raiva. A mãe veio até perto da gente e parou pra nos olhar. O pai nem levantou a cabeça, que tava escondida nos braços dele.
Eu vi que a mãe tava muito séria. Eu resolvi dar o desenho pra ela. Pelo menos ela largou uma das malas no chão pra poder pegar a folha. Eu senti um aperto bem aqui no meu peito. E fiquei com muita vontade que ela gostasse do meu desenho de pássaro e dissesse que lindo. Mas acho que ela quis chorar. Talvez ela ache que pássaro assim tão colorido é uma invenção muito maluca e não pode existir. Bem rápido ela pegou as malas e se virou. Eu ouvi quando a porta da frente fechou. O pai também, porque ele levantou a cabeça. Eu não perguntei nada. Mas ele falou bem assim:
- Não te preocupa. Daqui a pouco ela volta.
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